O QUE SÃO AS AÇÕES?



  • GRUPO DE ESTUDOS (Fevereiro 2009) - Diante do desejo de estudar a arte da cena, e suas múltiplas possibilidades de encontro com o público, a primeira disposição foi a de reunir colegas com o mesmo interesse e partir para as pesquisas. A ideia inicial foi reunir material teórico e registros históricos das escolas e dos movimentos artísticos do século XX. Aliado a este interesse, havia a inquietação sobre questões de gênero, padrões de comportamentos e o olhar externo sobre quem se é. A partir disto, chegamos nos textos da senhora Simone De Beauvoir, às senhoras das peças de Nelson Rodrigues, aos tormentos e manifestações de Frida Kahlo, às encenações de Bob Wilson, ao Dadaímo, ao Cubismo, via Pablo Picasso, à Casa de Bonecas, de Ibsen, entre outros. Estas referências se tornaram essenciais na gênese desse projeto, que foi se alimentando de tudo que provocava os sentidos, o olhar, os limites e os corpos no espaço. Esse Grupo de Estudos iniciou o Processo, sem a pretensão de produzir montagens cênicas. Com o tempo, as cenas foram sendo experimentadas, até chegar a uma versão pública;
  • INTERVENÇÃO PROCESSO NATIMORTO (Fevereiro de 2011...) - Esta ação foi a primeira fora da salas de debates e ensaios. A partir das muitas referências visuais, plásticas que íamos encontrando, entre elas os rostos pintados por Picasso e Frida Kahlo, chegamos aos Seres Natimortos. Consistia em corpos vestidos de forma imposta, com clássicos modelos de vestidos "femininos", que tomavam chá em movimentadas esquinas no Centro da cidade de Manaus. Estes corpos possuíam cabeças quadradas, brancas, com faces pintadas à mão, sempre felizes e coloridas. Estes seres chegavam nesses pontos de fluxo urbano e lá ficavam por tempo indeterminado, para apreciação ou confusão aos que passavam. Nada deveriam fazer, se não levar suas xícaras de chá em direção à boca. Em Manaus foram quatro os pontos de atuação. Anos depois a figura volta a aparecer numa ação-manifesto no Muro da Escola de Artes e Turismo da UEA, em Manaus, perguntando PRA QUÊ ARTE?, escrito num grande letreiro em lambe lambe. O Ser Natimorto sobre o  muro e sobre a pergunta, passou 10 Horas sobre a estrutura, numa interação constante entre corpos que passavam pelo local, falas de resposta ao acontecimento, aplausos e vaias. Na época, artistas de todo o país, começavam a ser censurados por suas obras, por parte da população, forças armadas e poder público. Era o retorno fajuto e descabido de uma onda conservadora que segue assombrando. Em pleno Anos 2000. A ação, agora acompanhada de uma surrada bandeira do Brasil, empunhada por uma das mãos do ator, e um traje de gala "masculino", volta a aparecer em Lisboa (PT), em Madrid (ES) e em Paris (FR), icônicas cidades da Europa, pela arte, pelo fluxo migratório, por seus centros econômicos e políticos. Nas ocasiões (Março a Julho de 2019), muitas foram as respostas ao acontecimento. A bandeira brasileira despertava empatia na maioria, ligando imediatamente às recentes eleições presidenciais e tudo que representava. E assim, criando sentido ao que viam na figura. Nestes locais a ação durou de 4 a 10 horas, provocando incômodo nos que passavam, por perceber que nada acontecia, a não ser o desgaste do corpo Natimorto, que visivelmente se desgastava e terminava no chão, esgotado. Sua última aparição foi na Praça Rosevelt, em São Paulo (SP), quando do Festival Satyrianas, da Cia de Teatro Satyros. Para este evento, o Ser Natimorto ganhou uma arma e bíblia cenográficos, além de estar rodeado de balões coloridos de festa. Pura provocação e desejo de virar capa do caderno policial dos jornais. A ação durou 4 horas. E já temos programado a próxima aparição;
  • EXPERIMENTOS DE RUA (Junho 2011) - Dois anos depois dos primeiros encontros, o Processo formaliza sua primeira exposição pública, mais próximos de uma ideia de encenação, tentando reunir uma síntese do que vinha debatendo e experimentando. A investida não teria texto falado, seria na Rua, sem aviso prévio. Os atores chegam no local escolhido, impõem sobre seus corpos "masculinizados", uma vestimenta "feminina", riscam no chão, a área demarcada à apresentação. Isto comunica aos transeuntes uma "presença" incomum no espaço, despertando a curiosidade e a aproximação destes. Não havia outra intenção nesta ação se não desviar os olhares acostumados do cotidiano manauara. E nisto tivemos êxito. Mas, para não desperdiçarmos tanta atenção, formalizamos uma sequência de ações, de modo que todos pudessem acompanhar seu início, seu desenvolvimento e finalização. Sem que pra isso tudo precisasse fazer algum sentido conhecido. Um dos atores, em seu espaço delimitado, executa ações domésticas, designadas à mulher (segundo uma visão reducionista, conservadora e patriarcal). Essas ações eram cumpridas por este corpo forçadamente feminino, como se cumprisse uma pena. Os outros atores, buscavam provocar o público com cartazes, indagando os sobre o que era uma mulher, o que era um homem, o que era permitido, o que era certo e errado. A cena terminava com o ator  "mulher'' sendo amarrado a todos os objetos que usava em cena, aos cartazes com perguntas, e encharcado de tintas de todas as cores e frutas diversas, lançados em direção ao seu corpo pelos espectadores, convidados pelos outros atores. Esses espectadores deveriam agir sobre o corpo do ator "mulher". Deveriam mudar lhe a cor, a forma e o cheiro do seu corpo, como se o transformasse numa outra versão de si, por uma ação externa. Ao final, um outro corpo se mostrava no espaço, que também já não era o mesmo, bem como a todos que ali estiveram. Essa premissa final acompanha todas as ações do Processo Natimorto desde então;
  • OCUPAÇÃO DE CHEIA (Maio 2012) - Em 2012, a cidade de Manaus testemunha uma das maiores cheias do Rio Negro, da história. O Centro da cidade é invadido, calmamente, por suas escuras águas, bloqueando tráfego de carros, pessoas e comércio. Passarelas são improvisadas pela prefeitura, levando pessoas de um lado a outro de importantes avenidas do Centro. Um cenário tipicamente amazônico, logo muito teatral, espetacular. Na época, o ator, diretor e dramaturgo Denni Sales fazia parte do Teatro Experimental do SESC/Am, o TESC, junto comigo (Dimas Mendonça), onde diariamente nos víamos e compartilhávamos do palco. Propus a Denni uma intervenção criativa, bem humorada, sobre o rico cenário que se projetava no Centro da cidade. Ele topou, convidamos colegas e amigos do recém criado Curso de Teatro da UEA, combinamos uma ideia comum a todos na abordagem do espaço, abrimos os camarins e guarda roupas do TESC, e lá fomos nós. Todos com trajes de banho, praia, atividades aquáticas e outras indefinidas. A repercussão entre a população do local e na mídia, foi de surpresa. Pra Quê? Quem se importa com respostas. Deve se seguir impulsos criativos sempre que outros, também dispostos, estiverem ao seu lado. É certo que as cheias acima da medida, nas cidades amazônicas causam muito transtorno às suas populações. Brincamos com uma realidade que já é dura. E que não precisava de mais dureza, drama ou lamentações. Nenhuma pessoa foi maltratada ou diminuída na sua dor. Divertimo nos todos;
  • LINHA TEMPORAL DE PROCESSO (2011 a 2015) - Esta ação é resultado das experiências vivenciadas nas ruas, quando das primeiras exposições ao público. Tudo que foi proposto na Rua, foi sendo reorganizado, alterado, de acordo com as respostas positivas e negativas por parte do público e dos atores. Sabíamos que demarcaríamos os espaços de atuação com riscos feitos pelos atores, e que as ações "domésticas" seriam uma parte do experimento. Nesse momento descobrimos que o Processo era maior. Que não falaríamos apenas das questões de gênero, que pouco sabíamos à época, mas do lugar do humano no espaço. Como se realiza, como ocupa, como é visto, como se modifica. Descobríamos o movimento antropofágico, tão presente na história do povo brasileiro (pós invasão européia). O ator "vestido de mulher", era uma peça do todo, porque ao seu lado, em outros espaços desenhados, outras ações se desenvolviam. Um apresentador recebia a plateia, animando a e arrumando a no espaço do teatro, de acordo com o valor financeiro que cada um podia pagar. Aos que optavam pelos valores menores (0,25 a 5,00), um lugar ao fundo lhes era designado, com direito a água da torneira e balas de hortelã, jogadas à piruada. Aos que pagavam mais, eram destacados no espaço, chegando até a assistirem a performance de dentro do palco, servidos com vinhos, uvas, chocolates finos e o que quisessem. O apresentador cantava ao microfone, um ator repetia ações "domésticas", um outro realizava outra natureza de ações, ligada ao doméstico, um outro servia os espectadores. Algum espectador poderia propor sua própria ação cênica e fazer o que quisesse. E houve este espectador. Não havia nada pra ver. Não havia nada para assistir. Por isso, optamos por não ter nenhum refletor ligado. Escuridão total. Porém, os que quisessem ver algo, deviam alugar pequenas lanternas a preço popular. Os que alugavam, descobriam nas paredes do Teatrinho do SESC, escritos a giz, diversos. Frases e textos de teóricos da filosofia, da arte, da bíblia, da tv brasileira, do tio da esquina. Um espaço escuro, lotado de curiosos, onde nada parecia acontecer, de relevante. Um grande jogo sobre o valor das pessoas e de suas experiências, sobre a relevância do Teatro, sobre o público, sobre o nada. A experiência ficou em cartaz, por períodos distintos, no Teatrinho do SESC/Am, com o apoio do Teatro Experimental do SESC (TESC), e integrou a programação do 4º Festival Breves Cenas de Teatro, no Teatro Amazonas, numa versão adaptada para o palco à italiana, onde toda dinâmica e provocações se tornaram outras. A dinâmica seguiu se processando a cada contato público. Nunca voltou a ser a mesma. Mas tudo que veio a ser depois, foi consequência das experiências anteriores;
  • EXPERIMENTOS DE REPETIÇÃO E EXAUSTÃO (2014-2015) - É nesta fase que começamos a perceber a dinâmica de ciclo, que se repete e se desgasta com o tempo, no espaço. E que se modifica, se transforma. Este é o ponto de partida para experimentarmos concretamente, essa ideia e conceito. Iniciamos uma série de encontros com colegas da cena, para um teste físico. A atividade em sala de ensaio, após uma breve descrição da ideia, consistia em marcar no espaço, quatro ponto de parada, onde o ator deveria executar uma ação física qualquer. Não poderia ser psicológica, ilustrativa, encenada. Mas algo concreto e físico, que se realizasse em si mesmo. Como um salto tentando tocar no teto. Havia um objetivo concreto. Seriam quatro ações físicas. De uma ação para a outra, o ator percorre um trajeto, correndo. Esse trajeto deve ser o mesmo, sempre. As ações também devem ser idênticas. O ritmo desse percurso deve ir se intensificando, de modo "natural". Por consequência do corpo que se move no espaço. O ator deve repetir tudo, até chegar à exaustão. Exaustão real, não intencional. E perceber tudo que se modifica em seu corpo, em sua mente, em suas ações e no próprio espaço onde está. E, caso seja visto por alguém, perceber o que muda no outro, também. Essa dinâmica se tornou basilar no Processo. Seria o nosso princípio, para tudo que viesse depois. Qualquer tema, debate ou conteúdo, deveria ser disposto ao público, a partir desta dinâmica. Foram muitas tentativas para entendermos de que forma essa dinâmica sintetizava nossas intenções, nas cenas que viriam posteriormente. Várias fases de teste e observações. A dinâmica de repetição e exaustão ilustrava de maneira física, no corpo e no espaço, e até no uso do texto falado, o conceito de Morte e Vida, de Decomposição, de Desgaste, de Renascimento e Sobre-Vivência, apontando para infinitas possibilidades de existência e expressões. Hoje, não mais como testes, mas como método de ensaios e criação, a dinâmica de repetição e exaustão, são processadas em cada ação cênica que propomos. O Processo segue, e nos leva a querer descobrir de que forma essa dinâmica poderá se realizar, quando da encenação de um texto teatral... na preparação de um elenco ou na maneira em que palavras serão ditas. Problemas para despertarem busca e investigação;
  • ABAPORU . T . AÇÃO (Julho de 2014) - Repetição e Exaustão confirmados em nossa pesquisa, partimos para a introdução desta dinâmica, num arranjo cênico com personagens, textos e roteiro. Algumas cenas surgiram para compor este espaço. Cenas oriundas de inquietações nossas, como nas primeiras abordagens. Movimentados pelas primeiras referências, chegamos ao desenho das seguintes cenas: uma família com valores conservadores, que executaria uma rotina doméstica, como de comercial de margarina, onde tudo lhes é perfeito, agradável e de boa aparência; uma dupla de dançarinas de boi bumbá, com uma empolgação a flor da pele, dispostas a tudo pelo seu boi do coração, ignorando qualquer outro sentido de existência; um pastor num programa de televisão grita suas verdades e certezas, enquanto um seguidor, ovelha, lhe assiste e lhe segue em todos os comandos. Extremos em seus discursos, os dois finalizavam num gozo compartilhado, cheio de erotismo; Um grupo de artistas disputa um pequeno espaço de exposição e visibilidade. Disputam a todo preço, a atenção e a aprovação de um público; Uma cantora glamourosa, saída dos musicais americanos dos anos 30 é quem faz a trilha musical nos entre-atos; um carregamento de "indígenas" é descarregado no espaço, junto de folhagens verdes artificiais e frutos amazônicos, trazidos por um ator-índio, que transita livre pelo espaço e cenas. O ator-índio tem um corpo indefinido e conduz os acontecimentos no espaço como um grande deus que decide o que acontece e quando deixa de acontecer. Ele é quem filma a ação. Todas estas situações são dispostas no palco do Espaço José Lindoso, no SESC/Am, em formato circular. Cada cena é posta num ponto do círculo como se marcassem as horas de um imenso relógio. A performance iniciava com o carregamento da floresta, trazido pelo ator-índio. É ele quem organiza o espaço. Puxando uma canoa sobre o espaço, onde traz os "indígenas", distribui os nos pontos de ação no círculo, onde representarão seus personagens e situações. Cada cena deve avançar no relógio, repetindo ininterruptamente até a exaustão. Entre uma cena e outra, a cantora glamourosa executa um número musical do alto de uma escada vermelha. Conforme tudo se repete e se perde no caminho, o ator-índio vai recolhendo os restos e destroços das cenas, incluindo atores e adereços e, reunindo os no espaço interno da grande canoa. O mesmo ator-índio, amarra a tudo e a todos, que recolheu do espaço, prende os com uma fita adesiva, joga sobre o embrulho muitas porções de tintas em diversas cores, passa por seus corpos todas as frutas que vieram juntas no carregamento e os fotografa, como um turista diante do que lhe parece exótico e diferente. O ator-índio se dirige à cantora, a leva para dentro da canoa, onde lhe devora as vísceras, representadas por pedaços de carne bovina embebidas em sangue cenográfico. A cantora é devorada e lançada na canoa, junto de todo o resto. O ator-índio encerra a performance puxando para fora do espaço, a canoa e seu lixo. A experiência desta performance demandou semanas de ensaios. Pretendíamos fazê-la para gravá-la em vídeo e inscrevê-la no festival local. Sabendo que não seríamos selecionados, por tamanha confusão que parecia. Fora a péssima qualidade das gravações. Assim nos foi. Mas foi esta, uma das mais complexas e ricas, experiência encontrada neste processo. Um excesso que nos mostrou os caminhos que poderiam ser refinados para dali em diante. Fizemos uma única apresentação, para a câmera. E só foi possível pela fase magistral que vivemos, acolhida pelos incríveis colegas ROBSON NEY COSTA, TAINÁ LIMA, FÁBIO MOURA, ALLICIA CASTRO, EMILLE NÓBREGA E JÚNIOR VICTORINO. Um arraso de colaboração e empenho;
  • AMANHÃ. LÁ EM CASA (Julho 2015) - O primeiro experimento escrito, dramatúrgico do Processo. Uma compilação de falas cotidianas de uma suposta família "tradicional", amazonense. Pai, Mãe, Filho e Filha estão reunidos em volta de uma mesa, para mais uma refeição. Toda a peça se passa em volta da mesa. Eles saem, estudam, trabalham, cozinham, se banham e transam, sem que saiam de suas cadeiras. Falam uma situação, e seus corpos fazem outra. Suas falas se repetem. Em alguns momentos são sem sentido. Cada um demonstra ao público uma máscara social, petrificada, engessada, caricata. Conforme se repetem, indo em direção à exaustão do que falam, seus corpos, imóveis, se veem sobrecarregados, prestes a explodirem. Personagens que seguram uma máscara na face e no que falam, enquanto explodem por dentro. A estrutura procurada visava alguma relação já proposta por Beckett e seu teatro do absurdo. Com a diferença que esta família não esperava nada, apenas repetia modelos e expectativas passadas, conservadas, a fim de não errarem nunca. E aparentarem que deram certos. Este texto fez apenas uma exposição pública, numa leitura performática. Ele deve passar por alterações e adaptações para futuras montagens. Apesar disso, sua escrita provocou outros exercícios, e algum refinamento nas pesquisas e investidas futuras do Processo;
  •  OCUPAÇÃO LUGAR UMA DE ARTES (Agosto 2015) - O Lugar UMA de Artes, foi um espaço produzido e gerido pelo artista FRANCISCO RIDER, em Manaus, onde realizou a Ocupação. Vários artistas e ações ocuparam os espaços do local, em períodos distintos,  incluindo um vasto Quintal. Foi no espaço do Quintal que, Rider propôs ocupação ao Processo Natimorto. O Quintal media aproximadamente 20 metros, coberto de vegetação rasteira e algumas árvores frutíferas no fundo. Delimitado por construções em concreto ao redor, o espaço verde se comprimia. Dimas Mendonça reuniu todo material vivenciado no Processo, desde 2011 e dispôs no espaço interno do local, como se montasse um laboratório de criação. Na primeira exposição, de contato e reconhecimento com o Quintal, o excesso do material trazido por Dimas, para impulsionar a ação de ocupação, pareceu conflitar com o Quintal e tudo não passava de mais confusão estética, temática e espacial. Indagado, provocado e movimentado pelo retorno que Francisco Rider lhe deu, Dimas se livrou de todo o "material" trazido das outras experiências e fases, e se concentrou no Quintal. Disposto a ouvi-lo, senti-lo e responder a este novo contato. Mas a premissa ficara. Era a mesma: repetição e exaustão, morte e vida, composição e decomposição. Estes elementos se mostraram vivos e presentes no ambiente orgânico do Quintal. Algumas semanas de contatos, improvisações e experimentos e, uma mínima organização, resultaram numa intervenção puramente corporal, em que o corpo do ator executava um trajeto de demarcação no Quintal, marcado por tinta branca, com o uso de uma enxada. Um desenho foi traçado em toda extensão do local. Cada linha traçada para servir de caminho, conduzia o corpo do performer a um ponto de Ação. Lá, uma investida física, que dialogasse com a arquitetura presente naquele ponto, junto à relações de peso, gravidade e articulações, deveria ser executada e repetida à exaustão. Eram 5 pontos de parada e Ação. Ao final, em estado exaustivo, o caminho desenhado junto das ações, já não existiam mais como no início. Se perderam no espaço e constituíram outros corpos (humano, vegetal, mineral...), misturados às folhagens, frutos, insetos, pedras, terra, lixo, e despertando uma outra existência ao corpo expressivo do ator. Essa dinâmica, organização e disposição de ocupação do espaço, recebeu o nome de ABAPORU .T. AÇÃO. A ideia antropofágica de corpos que se devoram no espaço, gerando ação, acontecimento e mutações, a partir do significado do nome Abaporu, de origem Tupi-Guarani;
  • ABAPORUTAÇÃO, Performance Teatral (Janeiro 2017) - A mesma estrutura de ocupação e disposição no espaço, encontrados no Quintal do Lugar UMA de Artes, agora se projeta num espaço cênico fechado, de modo a receber um público. À estrutura foi somada algumas figuras de contexto pessoal ao ator, de modo que servissem de demonstração de corpos sociais, institucionais que morrem no espaço, depois de repetição e exaustão. Uma mãe aterrorizada por qualquer mudança de percurso "indevido" em seu habitat natural, que destaca sua família das outras, como a mais abençoada e perfeita. Eleita de deus. Ela mantém uma máscara em seu rosto, sorridente e feliz ao extremo. Um pastor evangélico que grita a todos o destino de cada um. Elege os eleitos de um deus e adianta a condenação de outros, a maioria, que não respondem aos seus modelos de santidade e decência. E o mais comum aos artistas presentes na estreia, o artista. Uma figura perfeita, com um currículo invejável, muito adestrado e competente nas muitas artes que domina. Nada lhe é comum. Tudo se torna arte a sua volta e por onde ele passa. Esses seres são posicionados em pontos da sala, por onde o único ator em cena deve passar, e dar vida, exageradamente, a cada um dele. No caminho, o ator marca um ponto no espaço onde canta e um outro onde dança. Este ator que canta e dança é o que recebe o público no espaço, de forma animada e gentil. Ele é o ator que se traveste das outras figuras, mais caricatas. Esse ator vai percorrer todos estes pontos e personagens de forma alucinada, além de cantar e dançar nos pontos destinados a isto. Ele não para, mas vai cansar e tropeçar em alguns momentos. Não se sabe. Tudo a partir deste ponto é imprevisível e possível. Nada está proibido. usar o público, beijar, subir em cima, destruir o espaço, tirar a roupa, mudar o público de lugar, expulsá-lo do lugar, vomitar, comer... Nada está descartado. E para cada apresentação desta performance, um final diferente se mostrou. Uma das possibilidades se mostrou forte e se repetiu algumas vezes. Foi o ator extremado e exausto, terminar sua tentativa, no chão, sem roupas, ofegante, com todas as luzes cênicas apagadas. Antes que o público entenda este momento como final, ele reaparece em meio à escuridão, iluminado por uma pequena chama, vinda de uma vela e busca o olhar que não enxergara, da plateia. reuni todos num círculo pequeno a sua volta, olha os todos nos olhos, aperta lhes as mãos, comunica sua alegria em vê-los ali, comunica sua superficialidade, com que os tratou até ali, e respira junto com eles. No escuro. Um trecho da peça Macbeth, de Shakespeare, em que divaga sobre o tempo da existência, é confessado aos sussurros à assustada plateia. E finaliza com o apagar da vela. Desta forma a performance tem encerrado suas exibições, sempre encontrando inúmeras novidades e imprevistos, entre a abertura na recepção do público até a fala de Shakespeare. ABAPORUTAÇÃO se mostra hoje, o objeto mais claro e objetivo, que melhor representa os anseios e buscas do Processo Natimorto. Ler sobre o Processo e sua trajetória até aqui, e participar de uma exposição de ABAPORUTAÇÃO, completa uma possível compreensão de suas intenções. Ou não. Mas tem sido outro bom momento de encontro e interação com as plateias;
  •   ABAPORUTAÇÃO Em Cinco - ABAPORUTAÇÃO De Uni - ABAPORUTAÇÕES - (2017) - Experiências derivadas de ABAPORUTAÇÃO, produzidas em parceria com outros atores, para atender a participações em diferentes programações. ABAPORUTAÇÃO Em Cinco foi uma versão em cinco minutos corridos e eufóricos, da performance, no Festival 5 Minutos em Cena, em Manaus. ABAPORUTAÇÃO De Uni foi a versão na Mostra de Teatro da UEA, numa exibição intimista. ABAPORUTAÇÕES foi a primeira tentativa do Processo em experimentar a estrutura de ABAPORUTAÇÃO, com mais de um ator em cena. A performance foi apresentada uma única vez para avaliação de disciplina no Curso de Teatro da UEA, e obteve boa resposta do público presente. A versão com outros atores segue de pé, e mantém como colaboradores, os mesmos atores daquele momento. A experiência dessa dinâmica corporificada em outras pessoas, comunicadas por essas outras pessoas e suas próprias histórias, num espaço movimentado por suas próprias experiências, é o grande fogo e novidade que impulsionam os outros momentos de busca, que poderemos experimentar no Processo;
  • PRA QUÊ ARTE? - Impresso-Manifesto/ Encontros (Setembro 2017 ...) - A pergunta surge com a presença, cada vez mais efetiva, do Processo, no ambiente acadêmico do curso de Teatro, na Universidade do Estado do Amazonas. Desde a primeira formação de colaboradores, todos já eram alunos do recém criado Curso de Teatro. E assim continuou sendo até o atual momento. E foi com a entrada de Dimas Mendonça, no mesmo Curso, em 2016, que a pergunta se projetou e virou objeto de provocação e criação. Ela se origina, principalmente, da necessidade de encontro do artista com um público. Acontecimento vital a qualquer expressão artística. O Público foi um item do jogo proposto pelo Processo, desde a primeira exposição, que mais se mostrou e expandiu. Se transformou no centro do jogo das cenas, das experimentações e maior interesse. Brincar com os sentidos desses públicos, com suas expectativas, com sua fome, com seus medos e traumas. Mas, diante da baixa presença de públicos nas exposições de arte em Manaus, o Processo se dispõe a se perguntar PRA QUÊ? Para em seguida, ir ao encontro destes públicos em qualquer lugar. Cresce o desejo de encontro, para além das programações oficiais, em exposições de rua, nos bairros distantes, escolas e centros sociais. Mas ainda nos encontramos na fase da pergunta. A percorreremos por um tempo. Um tempo de Processo. Sem data pra terminar. Queremos conhecer quem faz e propõe manifestações artísticas, os artistas da cidade. O que fazem, por que fazem e como fazem. E nessa fase, propomos reuniões trimestrais com grupos de artistas produtores de teatro, na cidade, para debates e confraternizações. Um panorama de nossas programações, de nossos percursos e interesses. Sem imposição de modelos, formatos, caminhos, escolhas, modos de operação. Tentando fugir do fascismo a que muitos, sem perceber, praticamos. Para cada Encontro, um registro em vídeo, fotos e escritos para publicações digitais e impressas. Um material de documentação e promoção do fazer teatral em Manaus. Assim pretendemos. Com pouca ou muita repercussão, fazer é o mais importante. Seguir os impulsos, ultrapassar os medos e dúvidas, e fazer;
  • JOGO DE NÓS (Novembro 2017) - Um experimento que visava cumprir uma avaliação de Direção no curso de Teatro da UEA, se transformou numa potente proposta de cena para o Processo Natimorto. Apresentado uma única vez, com poucos ensaios, para uma plateia de professores e alunos do curso, a performance se mantém como desenho possível à futuras montagens e apresentações. A ação tratava de um jogo de futebol entre dois corpos "femininos", mascarados. Como super heroínas, ou lutadoras de luta livre. Um terceiro personagem, o mascote do jogo, é quem narra o jogo, e descreve as jogadoras. Ele direciona os movimentos do jogo a partir dos corpos "femininos" expostos, usando os como produto da imaginação machista. Ele as trata de forma sedutora, erótica, sexualizadas, como se as vendesse num açougue, para degustação pública. Essa prática dita ao microfone, vai ficando mais violenta e presente, conforme repetem os movimentos de um convencional jogo de futebol. O narrador, protegido por uma máscara de leão, como mascote, intensifica sua ofensiva, citando frases ditas por figuras públicas de depreciação ao corpo da mulher. O ritmo de tudo acelera, até que as duas mulheres jogadoras, tiram suas máscaras, parte das suas roupas, mostram quem são e avançam em cima do narrador, que as ordena para que voltem ao lúdico e não decepcionem a plateia. Elas espancam ele, tomam o controle do acontecimento público e cometem todo tipo de humilhação do macho narrador. Não há um desenho fixo dessa agressão-resposta. Deverá ser proposta pelas mulheres envolvidas na encenação. E de surpresa, abordada no narrador. O macho-narrador deve se por em estado de surpresa, sempre ordenando as para que voltem à fantasia. Um jogo entre o real e a ficção, entre distintas realidades, que buscam aguçar os sentidos dos espectadores. Sem final definido, a proposta é um ato rebelde e de resposta às muitas violências cometidas contra mulheres. A ação foi dirigida pela TAINÁ LIMA, convidada pelo Processo e com atuações de ELIÉZIA DE BARROS e KARINE MAGALHÃES. Todas mulheres... mas ainda "orientadas" na proposta pelo DIMAS MENDONÇA... um macho. Pois é... há muito o que buscar e experimentar para chegarmos ao ideal;
  • TARTUFO-ME (Março 2018) - Um personagem de ABAPORUTAÇÃO, umas das máscaras encontradas ainda em 2014, no experimento ABAPORU .T. AÇÃO, ganha um solo inteiro com texto, marcas e até figurino. A ação mais bem sucedida, que mais longe foi do Processo, tem sido o monólogo Tartufo-Me. Uma adaptação livre da peça Tartufo, de Molière. A montagem foi impulsionada pela frustração de ter a peça, que estava em produção no Teatro Experimental do SESC (TESC), cancelada pela instituição. Sem conseguir reunir os atores da Cia, em torno do texto de Molière, com as devidas condições de trabalho e produção, para manutenção do trabalho, coube ao ator DIMAS MENDONÇA, a tarefa de levar adiante o projeto, por inciativa própria. Em versão solo. Os personagens se reduziram aos dois principais da peça, Orgon e Tartufo, que seriam interpretados pelo ator, em diferentes momentos da montagem. O texto trazia todas as referências religiosas do tempo em que Dimas frequentou igrejas evangélicas. Mas se atualizaram instantaneamente com a ascensão de figuras religiosas e conservadoras, que invadiam os meios de comunicação e bancadas políticas no país. A montagem foi viabilizada pela parceria do ator Dimas Mendonça com o produtor Tércio Silva, a frente da UM TEATRO PRODUÇÕES, que assumiu a produção e direção do espetáculo. O espetáculo tem a concepção de um grande show televisivo. Com luzes, números musicais, projeções midiáticas, nos moldes do show business, em que se tornaram as religiões neo-pentecostais. A peça foi selecionada para o Cena Contemporânea, em Brasília. Importante evento das artes cênicas no Brasil. Agora, uma segunda montagem do texto é preparada, com outras referências e interesses. Seguem as duas, em algum lugar, gritando e agonizando neste Brasil Era Bolsonaro, até que as forças das trevas, travadas e encubadas, voltem para o inferno. Amém!; 

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